A cura da tronchura pela repetição

Por Ivo Mascena

Whiplash! Que diabo é isso? Eu não sei, mas para manter a graça, não fui atrás de saber… Bem, mesmo sem saber, assisti a um filme nessa última rodada do Oscar com esse nome. Até pensei que era sobre uma música do Metallica, na fase em que Hetfield, Ulrich e Kirk Hammet eram ricos – de espinhas. É, errei de ritmo. O filme, quer dizer, o filmaço, era sobre um aluno de uma prestigiada escola de música focada basicamente em Jazz. O jovem era um baterista talentoso e tentava impressionar um legendário professor cujo aval praticamente determinava a sorte do fulano pelo resto da carreira. Só que tinha um porém: o tal mestre era escroto. Mas escroto mesmo. No último grau! O cara tinha um transdutor de diapasão e um metrônomo instalados no côco! Percebia qualquer dissonância, qualquer descompasso e dava esporros cavernosos nos alunos. Só vendo pra entender.

O rigor do professor levou o pupilo a buscar a batida perfeita, o ritmo adequado, a resistência apropriada. Para isto: treino. Treino, treino. Treino até sangrar! Literalmente.

Isso me trouxe de volta à mente uma frase que costumava dizer, brincando com outras pessoas, sobre o tema vocação: nunca vi um jogador de futebol reclamar, frustrado, que sonhava em ser contador, advogado, engenheiro ou médico mas o pai o forçou a batalhar no esporte bretão. Nunca vi um show, um filme, uma peça ou um jogo de futebol olhando a atuação dos participantes como um sacrifício (em inglês ou em alemão, o mesmo termo se aplica a jogar, brincar ou atuar: spiel/play ). Mas estes eram os olhos de quem via aquilo confortavelmente sentado com uma cervejinha na mão num assento marcado.

A cada pênalti perdido, a cada passe errado, a cada lateral mal batido, a cada escanteio que não atinge a meia altura na linha da pequena área, enfurecido gritava: cabra safado! Ganha num mês o que eu ganho num ano só pra fazer isso e ainda erra! E aí me lembro do filme e do sofrimento do protagonista em busca da perfeição, das inúmeras repetições que ele fazia para atingir o melhor. Dei-me conta que a construção da habilidade requer muita disciplina, muito esforço.

Lembrei-me do Oscar Mão-Santa dizendo que quando todos saíam do treino, sua esposa ficava com ele para treinar arremessos. Lembrei-me de Zico, Marcelinho Carioca, Roberto Dinamite, Neto, Rogério Ceni e meu último neo-desafeto, Juninho Pernambucano, declarando que os refletores ficavam ligados uma ou duas horas após o treino para eles ficarem treinando as batidas de faltas.

A cura do tronchura pela repetição. A aniquilação da perronhice pelo treino. O adeus ao bisonho pela determinação. A música é arte. O futebol, para ser arte, também requer sacrifício. Gostaria de ouvir ou ler na imprensa que algum jogador do Sport faz esse esforço adicional em busca da falta perfeita. A diferença entre o extraordinário e o ordinário é um extra.

Ivo é natural de Recife e reside em Brasília/DF

O texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Leões do Cerrado.

This article has 3 Comments

  1. Parabéns Ivo, grande texto. Concordo exatsmente e ainda acrescento que um dos centroavantes artilheiros mais perronhas que vi jogar treinava exaustivamente finalizações: Bizu!

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