Novos Cabras da Peste

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Por Ivo Mascena

O termo cabra de peste é um regionalismo muito conhecido no Nordeste. Sua origem provável é uma derivação do termo cabrão, que em português de Portugal era utilizado para designar homens ruins. Cabrão da moléstia, diziam. O termo, contudo, foi se desviando de seu sentido original até passar a ser um elogio, talvez por haver no nordestino esse olhar dual entre o medo e a admiração às pessoas mais, digamos, brabas (Lampião: bandido ou herói?). Mas, se um nordestino fala em cabra da peste em situações de enlevo, para nossos irmãos mais ao sul, isso é dito num tom jocoso.

O mundo, porém, dá voltas e muitas dessas voltas são dadas atrás do dinheiro. Já havíamos percebido o esforço dos clubes do Rio de Janeiro em mandarem seus jogos fora do estado em busca de bilheterias melhores. Brasília, Manaus, Maceió, Cuiabá. Essas e outras cidades recebem os times de fora com muito entusiasmo. Pelo fato de não terem times que disputem os campeonatos nacionais principais com frequência, a população local acaba adotando estes times como seus preferidos.

Eis que, nesta última semana, vimos as notícias do interesse do Flamengo e do Goiás em disputarem a Copa do Nordeste. Dez milhões de motivos, vaga para a Copa Sulamericana e uma possibilidade de estádios cheios e merchandising disseminado numa região que há alguns anos vem crescendo num ritmo mais acelerado que o restante do país explicam o interesse destes times. Por outro lado, não sejamos cegos, a presença de um Flamengo na Copa do Nordeste também traria mais visibilidade para o torneio e para o futebol da região.

O que precisamos então avaliar é o real propósito da Copa.  Contando apenas com um time na primeira divisão e quase sempre coadjuvante nos certames nacionais, a Copa representa uma possibilidade de enfrentar adversários diferentes dos habituais e para pelo menos meia dúzia de times, a chance de vencer algo que não seja o estadual. O torneio é realizado de modo relativamente simples, com uma estrutura de chaves que lembra os campeonatos brasileiros da década de oitenta. A premiação em dinheiro e o acesso a um torneio internacional também são recompensas muito importantes para times dos nove estados.

A introdução de times de fora entre os da região pode roubar essa possibilidade para as equipes nordestinas. Por outro lado, a participação de alguns convidados mais fortes dá, a um eventual vencedor nordestino, ainda mais orgulho pela conquista. Os novos cabras da peste podem dar sabor e valorizar a copa. Se eles se tornarem campeões contumazes contudo, podem enfraquecer o sentido do nosso torneio e assim passarem a cabrões da moléstia.

Ivo é natural de Recife e reside em Brasília/DF

O texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Leões do Cerrado.

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