Um rubro negro no Itaquerão

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Por Ivo Mascena

Uma viagem a trabalho acabou propiciando a oportunidade de estar em São Paulo durante o mesmo período em que o Sport jogaria contra o Corinthians.

Comecei a tentar algum contato com alguém da Leões de Sampa pelo Facebook para saber como deveria proceder, quando comprar o ingresso, que horas chegar, etc.

Um colega paulista da empresa que também tinha ido para a reunião e que, coincidentemente, trabalha em Recife, me avisou que iria com um amigo. Eu havia combinado com outro rubro-negro da Leões do Cerrado, Sérgio Santana, para irmos e logo articulei a carona para a dupla recifense chegar ao Itaquerão.

Na quarta à noite, o Sérgio sinalizou que não conseguiria ir, pois estava do outro lado da cidade e não teria tempo hábil para nos encontrar.

Parti com meu colega para encontrar o amigo dele num bar e, de lá, irmos ao estádio. Um detalhe para que se tenha a ideia do nível de fanatismo dos caras: eles foram ver o Corinthians disputar o Mundial em Tóquio!

Saímos da zona oeste rumo a zona leste e o tempo foi se alongando nos engarrafamentos paulistanos. A medida em que a cidade ia ficando com mais jeito de periferia, o trânsito melhorava.

São Paulo é enorme e, mesmo tendo ido dezenas de vezes lá, nunca tinha passado pela região.
Ao nos aproximarmos do estádio, vi um prédio muito moderno, com paredes translúcidas e escadas rolantes que, no ângulo que eu observava, não me lembrava um estádio. Quando circulamos, pude ver a parte aberta que me permitiu ver o gramado, arquibancadas e um espetacular telão.

O ingresso dos torcedores do Corinthians podia ser comprado pela Internet. O dos visitantes, apenas no local, a partir da 20:00 horas.
Os colegas compraram ingresso para um setor que permitia, pagando um valor a mais, parar no estacionamento do estádio.

Do estacionamento nos despedimos. Combinei que se não conseguisse comprar ingresso, voltaria de metrô.
A partir dali, cabia a mim tentar localizar o tal portão G, local onde havia as bilheterias e o acesso dos visitantes.

Havia muitas pessoas com uniforme de auxiliares de informação. Procurei o primeiro: portão G??? Ah, entendi! O cara respondeu com um leve sorriso.
“Vai por ali e quando chegar ao final,fala com os policiais para abrirem um portão”. Fui até o outro lado e o policial disse que por ali não havia passagem e que deveria retornar.
Voltei meio chateado e, ao passar de novo pelo primeiro informante, o cara me reconheceu e ainda perguntou se não havia dado certo.

Fui seguindo o fluxo e achei uma placa apontando para o portão G. Pelo menos agora estava na direção certa.
Já chegando a uma das quinas do estádio (ele é retangular), havia uma grade daquelas de organizar filas e o povo aglomerado. Obviamente eu era
um dos poucos sem algo na roupa que indicasse ser corinthiano (e nem Sport, pois não sou doido) mas fiquei ali durante alguns minutos parado e esperando os policiais liberarem a entrada.

Estava curioso para saber por que estávamos parado, mas uma pergunta denunciaria meu sotaque.  Aguardei. Entrada liberada.

Chamei um policial e, discretamente, perguntei como acessar o portão G. Este abriu a grade e me acompanhou até me deixar com outro policial em outro portão.

O segundo policial me deixou lá, onde estava “meu povo”.

Comprei ingresso, que é impresso com seu nome na hora e entrei.
Devíamos ser uns 500 torcedores do Sport. A acústica do estádio e a superioridade numérica favorecia os cânticos corinthianos.

Nossos gritos de guerra eram abafados assim que eles percebiam que estávamos tentando alguma coisa.

E começa o jogo!

Nosso time está jogando bola e não treme. Dá gosto ver o Sport jogar sem se acovardar. Toque de bola, passe, perigo. Algo porém, me
chateava: estávamos errando muito mais passes que o normal.

O primeiro gol do jogo foi para o lado que nós estávamos. Bola no espaço de Samuel Xavier centrada para nossa área…

Sem desespero, vamos pra cima e Marlone pela esquerda levanta com perfeição para André escorar de cabeça. Gol. A torcida corinthiana se cala… Pela primeira vez nosso
cazá-cazá era ouvido do começo ao fim. Continuamos jogando bem, dominando os espaços. No final do primeiro tempo, o escanteio pro time
adversário e a sensação de dèja-vu: gol nos minutos finais.

Ok. Sem desespero. Iríamos, no mínimo, empatar.

O intervalo com sacanagem:  a TV Timão no telão só mostrou replay dos gols do Corinthians. Para completar, uma sacada de marketeiro fdp: um momento do estilo “recordar é viver”, mostrava um gol de falta de Marcelinho Carioca em 1998, na Ilha, do meio da rua. Deveriam mostrar o gol de Enílton em 2008…
Segundo tempo começa e tem um gol de André anulado… Quando parecia que iríamos empatar, tomamos o terceiro. E havia espaço para mais!
Só que Eduardo fez as mudanças que transformaram o jogo: Hernane e Régis substituindo André e Élber.

HB9 mostrou senso de atacante e se aproveitou da pixotada do lateral para cobrir Cássio! Bem pertinho da gente! Massa!

A torcida do Corinthians não se intimidou e continuou empurrando o time. Mas, rapidamente, empatamos. Aí o estádio calou.

Só nossa torcida entoava música. E achei que fôssemos virar.

Quando estava me despedindo dos colegas no carro, eles me pediram para não ficar até o fim porque os portões dos visitantes são fechados
por meia hora após o fim do jogo para evitar confusão. Para não atrapalhar a carona, perguntei aos policiais a que horas fechariam os portões e ele me disse que era quando faltassem 5 minutos para acabar o jogo. Aos 40 minutos, começo a sair. Ligo o rádio do celular e vou dando a volta por fora estádio. Ouço o grito da torcida do corinthians e o locutor da rádio narrando o pênalti.

O gol injusto vem sacramentar o resultado. Ainda por fora fiquei olhando pelo telão para ver se conseguiríamos o empate milagroso. No rádio, comentaristas dizendo que foi o melhor jogo do brasileiro. Jogadores do Corinthians dizendo que ganharam do melhor time do campeonato.

Cheguei ao carro da minha carona e esperei um pouco eles chegarem.
Não ficaram no meu pé. Ligaram o rádio numa emissora famosa pelo apresentador que adora merchandising. Ele gritava a plenos pulmões que tinha sido um absurdo o pênalti.

Meus colegas deviam estar com aquele gosto estanho de conquistar algo que não se merece.

Eu estava indignado, mas esperançoso. No returno jogaremos em casa contra praticamente todos os adversários que estão acima de nós na tabela.

Nos aguardem…

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